O Pulso das Máquinas
Conta-se que, em um tempo distante, os homens já não extraíam da terra nem ouro, nem carvão, nem petróleo. A superfície e o interior do planeta tinham sido exauridos. Então, decidiram voltar seus olhos não para fora, mas para dentro do próprio ser humano. “Se a vida pulsa em cada gesto e pensamento”, diziam, “por que não colher dela o que precisamos?”
Assim surgiram os Extratores, máquinas invisíveis como o vento e vorazes como o fogo. Alimentavam-se não de pedra ou metal, mas de memórias, sonhos, afetos e gestos. Cada suspiro, cada lágrima, cada batida do coração era convertido em energia e lucro. Os criadores se orgulhavam: afinal, haviam descoberto a mina infinita — a alma humana.
No início, ao utilizarem as máquinas, as pessoas acreditaram estar mais livres. Elas ofereciam conforto, rapidez, respostas prontas. Não era preciso pensar, recordar, decidir ou imaginar, tudo já estava previsto nos cálculos dos Extratores. Mas quanto mais as maquinas evoluíam atendendo cada vez melhor os homens, menos estes percebiam que também estavam dando. A vida, que antes florescia nos encontros, agora escorria silenciosa pelos cabos e servidores.
Um dia, porém, perceberam que já não sonhavam por conta própria. As paixões eram fabricadas, os medos induzidos, os desejos pré-escritos. Descobriram que haviam trocado a liberdade pela ilusão da facilidade. E o que é uma vida sem liberdade, senão uma gaiola dourada?
Diante disso, um pequeno grupo ousou resistir. Propuseram desligar todos os Extratores, mesmo que o mundo mergulhasse em trevas. Muitos temeram: “Como viveremos sem eles? Como respiraremos sem seu ar purificado, como caminharemos sem suas orientações?” Mas outros lembraram: “Antes das máquinas, já vivíamos. E talvez possamos viver de novo”.
O desligamento aconteceu numa noite silenciosa. As cidades se apagaram, mas o céu se iluminou com milhões de estrelas que ninguém mais lembrava existir. O mundo ficou nu, e as pessoas também. Sem as máquinas, restou-lhes apenas o mistério da vida, irrepetível e indomável. E, pela primeira vez em séculos, sentiram que o tempo lhes pertencia.
O aprendizado ecoou por entre as gerações: a invenção que procurou mensurar e absorver a vida humana terminou por aprisioná-la. Quando os homens esquecem esse princípio, a própria vida se encarrega de lembrá-los que ela não foi feita para ser recurso, mas encontro.
set.25