Kareishū: o cheiro da velhice existe, mas a ciência derruba o preconceito

 

O cheiro do tempo: o que a ciência diz sobre o odor associado à velhice

Todo mundo já sentiu. Ao entrar na casa de um avô, num quarto de hospital geriátrico ou num lar de idosos, algo no ar é imediatamente reconhecível — um cheiro levemente oleoso, um pouco terroso, que muita gente associa automaticamente à velhice. Em português não existe uma palavra consagrada para isso, mas em japonês ela existe há décadas: kareishū, que significa literalmente "cheiro da velhice". O que durante muito tempo foi tratado como questão de higiene ou como preconceito disfarçado de observação, a ciência foi aos poucos desvendando. E o que ela encontrou é mais interessante — e mais justo — do que o senso comum costuma supor.

A molécula responsável

Em 2001, pesquisadores japoneses liderados por S. Haze publicaram um estudo no Journal of Investigative Dermatology que identificou pela primeira vez o principal responsável químico pelo odor associado ao envelhecimento: uma substância chamada 2-nonenal, um aldeído volátil com cheiro descrito como oleoso e levemente gramíneo. O dado mais significativo do estudo foi a precisão etária da descoberta: o 2-nonenal foi detectado exclusivamente em pessoas com 40 anos ou mais, e sua concentração aumentava progressivamente com a idade.

Mas de onde vem essa substância? O 2-nonenal é um subproduto de alterações químicas que ocorrem em certas gorduras presentes na pele. O processo começa com compostos chamados ácidos graxos ômega-7 insaturados, dos quais o mais abundante é o ácido palmitoleico, central para a capacidade da pele de funcionar como barreira protetora e para a cicatrização de feridas. Um processo chamado oxidação pode causar a quebra de certas ligações químicas nesse ácido e, quando isso ocorre, um dos subprodutos é o 2-nonenal.

Em termos simples: com o envelhecimento, a pele passa por mudanças que aumentam a produção de certas gorduras e de substâncias oxidantes. Quando essas gorduras se degradam, liberam o 2-nonenal — e é esse composto que o nariz de quem está por perto detecta. Especialistas concordam que essa mudança não tem nada a ver com higiene pessoal inadequada; é resultado da interação entre compostos odoríferos e bactérias na pele, e representa uma alteração biológica natural do envelhecimento. 

Não é desagradável — é diferente

Aqui começa a parte mais surpreendente da história. Em 2012, a pesquisadora Susanna Mitro e sua equipe do Monell Chemical Senses Center, na Filadélfia, publicaram um estudo no PLoS ONE que testou experimentalmente se as pessoas conseguem identificar odores de diferentes faixas etárias — e o que pensam deles.

No estudo, odores corporais foram coletados de três grupos etários, com 12 a 16 indivíduos em cada grupo: jovens (20-30 anos), meia-idade (45-55) e idosos (75-95). Cada participante dormiu por cinco noites com camisetas contendo absorventes axilares, que foram depois cortados em quadrantes e colocados em potes de vidro. Os odores foram avaliados por 41 jovens, que tentaram identificar qual pote vinha da pessoa mais velha, além de avaliar intensidade e agradabilidade. 

Os voluntários conseguiram identificar com facilidade os potes com suor de idosos — mas avaliaram esse odor como muito menos desagradável e menos intenso do que os odores de pessoas jovens e de meia-idade. O neurocientista sensorial Johan Lundström, coautor do estudo, foi direto: a ideia de que o cheiro de idoso é ruim pode ser em grande parte um estigma social, não uma realidade olfativa.

Ou seja: o nariz reconhece o odor como distinto e característico — mas não necessariamente como repulsivo. O julgamento negativo parece vir mais da cabeça do que do nariz.

Nem todo mundo envelhece com o mesmo cheiro

Outro dado relevante do estudo original de Haze é que a produção de 2-nonenal varia consideravelmente entre indivíduos. Dois participantes na faixa dos 60 anos e um com mais de 70 produziam tão pouco 2-nonenal que até o espectrômetro de massa — equipamento de precisão laboratorial — mal conseguia detectar. Isso representava metade da amostra de pessoas acima dos 60 anos no estudo. O que significa que o "cheiro da velhice" não é um destino biológico universal, mas um fenômeno que varia muito de pessoa para pessoa, possivelmente influenciado por genética, alimentação e estilo de vida.

O papel da alimentação e dos antioxidantes

Se o 2-nonenal surge da oxidação de gorduras na pele, faz sentido que substâncias antioxidantes possam interferir nesse processo. E a pesquisa aponta nessa direção. Pó de groselha negra rico em antocianinas reduziu a emissão de 2-nonenal pela pele em adultos de meia-idade, e outros alimentos ricos em antocianinas — como amora, mirtilo, framboesa, açaí e romã — podem ter efeitos semelhantes. 

No Japão, onde o kareishū é levado a sério como questão de bem-estar social, desenvolveu-se um mercado específico de produtos para reduzir esse odor. Sabonetes à base de extrato concentrado de caqui japonês são usados para combater o acúmulo de 2-nonenal, pois os taninos da fruta ajudam a neutralizar a substância — algo que sabonetes comuns à base d'água não conseguem, por se tratar de um composto lipossolúvel. 

Preconceito embutido no olfato

Há uma dimensão social importante nessa história que a ciência também começa a mapear. Pesquisas sugerem que a avaliação negativa do odor de idosos tende a aumentar quando as pessoas sabem previamente que o cheiro vem de uma pessoa velha — o que indica que o julgamento olfativo não é neutro, mas contaminado por expectativas e preconceitos sobre a velhice.

Em culturas com maior reverência pela idade, como algumas sociedades asiáticas, a percepção desse odor pode ser significativamente diferente. O kareishū no Japão não é necessariamente tratado como algo repugnante — é reconhecido como uma característica a ser gerenciada com cuidado, da mesma forma que qualquer outra mudança corporal associada ao envelhecimento.

O que fica

O "cheiro do idoso" existe — a ciência confirma isso com precisão molecular. Mas a narrativa de que ele seria sinal de descuido ou decadência não encontra respaldo nos dados. Ele é o resultado de processos bioquímicos naturais, varia enormemente entre pessoas, e quando avaliado sem o peso do estigma social, é percebido como menos desagradável do que os odores de pessoas mais jovens.

Talvez o cheiro que a ciência identificou seja menos o cheiro da velhice em si e mais o cheiro do tempo — do corpo que viveu, que oxidou, que persistiu. E persistir, afinal, não é pouca coisa.

Referências

Haze, S. et al. (2001). 2-Nonenal newly found in human body odor tends to increase with aging. Journal of Investigative Dermatology, 116(4), 520–524. 

Mitro, S., Gordon, A. R., Olsson, M. J., & Lundström, J. N. (2012). The smell of age: perception and discrimination of body odors of different ages. PLoS ONE, 7(5), e38110. 

 

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