As mulheres e a escala 6x1: desigualdade de gênero, dupla jornada e saúde mental

 

Falar em escala 6x1 sem falar em gênero é contar só metade da história. A jornada de seis dias trabalhados por apenas um de descanso já é, por si só, um problema de saúde mental amplamente discutido. Mas quando se olha para quem efetivamente cumpre essa escala, um padrão salta aos olhos: ela recai com mais peso sobre as mulheres, e recai justamente sobre aquelas que, ao final do sexto dia de trabalho remunerado, ainda têm uma segunda jornada — não paga, não reconhecida e raramente dividida — esperando por elas em casa.

O que a escala 6x1 revela quando se olha pelo recorte de gênero

De acordo com dados do Dieese citados pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), cerca de 14,8 milhões de pessoas trabalham hoje no Brasil sob a escala 6x1, o equivalente a 33,2% da população ocupada. Esses números não estão distribuídos de forma aleatória entre os setores da economia: eles se concentram em atividades de funcionamento contínuo, como transporte aéreo (53,2% dos trabalhadores nessa escala), hospedagem (52%), alimentação fora do domicílio (47,1%) e comércio (42,2%).

Não por acaso, esses são setores com forte presença feminina. Comércio, serviços e saúde empregam majoritariamente mulheres em funções de atendimento, limpeza, cuidado e vendas — funções que, além de mal remuneradas, raramente permitem home office, banco de horas flexível ou qualquer negociação informal de jornada. É o tipo de trabalho que exige presença física, em horário fixo, muitas vezes em escala.

A "escala invisível": dupla e tripla jornada

A sociologia do trabalho tem um nome para isso desde os anos 1980: divisão sexual do trabalho, conceito desenvolvido por pesquisadoras como Helena Hirata e Danièle Kergoat para descrever como tarefas produtivas (o trabalho remunerado) e reprodutivas (cuidado da casa, dos filhos, de pessoas idosas ou doentes) continuam distribuídas de forma desigual entre homens e mulheres, mesmo quando ambos têm emprego formal.

Essa desigualdade aparece com clareza nos dados da PNAD Contínua do IBGE: em 2022, mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidado de pessoas, contra 11,7 horas dos homens — uma diferença de 9,6 horas por semana. Somando essas horas à jornada de trabalho remunerado de seis dias, o resultado é o que Amanda Corcino, secretária de Mulheres Trabalhadoras da CUT, resume em uma frase que circula entre movimentos sindicais: "nossa escala não é 6x1, é 7x0". Ou seja: mesmo no único dia livre da escala, para muitas mulheres não há descanso — há outro turno de trabalho, só que doméstico e invisível.

Esse não é um detalhe menor. Do ponto de vista da psicologia do trabalho, o problema da escala 6x1 não é apenas a quantidade de horas trabalhadas, mas a ausência de tempo de recuperação psicológica real — tempo em que a pessoa consegue se desligar mentalmente das demandas, relaxar e retomar controle sobre a própria rotina. Quando o único dia de folga da semana é absorvido por tarefas domésticas e de cuidado, essa recuperação simplesmente não acontece. E isso tem nome: sobrecarga alostática, o desgaste acumulado no corpo e na mente por exposição contínua a estresse sem pausas suficientes para recompor o equilíbrio.

Setores feminizados, remuneração menor, vulnerabilidade maior

O recorte de gênero na escala 6x1 não pode ser separado do recorte de renda e raça. Mulheres negras estão superrepresentadas nos setores mais precarizados: entre trabalhadoras domésticas e do cuidado, por exemplo, a presença feminina chega a cerca de 69,9%, com forte concentração de mulheres negras — e desse grupo, aproximadamente 1,4 milhão têm apenas um dia de descanso por semana.

Some-se a isso a desigualdade salarial: mulheres recebem, em média, algo em torno de 78,9% do que os homens recebem para funções equivalentes, segundo levantamentos amplamente citados sobre o mercado de trabalho brasileiro. O resultado é uma equação difícil de sustentar: mais horas de trabalho total (remunerado e não remunerado), menos remuneração e menos tempo de recuperação. Não é exagero dizer que a escala 6x1, aplicada a esse contingente, funciona como um multiplicador de desigualdades que já existiam antes dela.

O impacto na saúde mental das mulheres

Uma pesquisa da Think Olga, organização que investiga questões de gênero no Brasil, apontou que ansiedade e estresse afetam cerca de metade das mulheres brasileiras, com fatores centrais como a dificuldade de equilibrar as diferentes áreas da vida, a sobrecarga de tarefas domésticas e a ausência de apoio de parceiros ou redes de suporte. Um dado chama atenção nesse levantamento: apenas 21% das mulheres relataram satisfação em conseguir equilibrar vida pessoal e profissional.

Há também um efeito psicológico menos discutido: a tendência de mulheres internalizarem esse cansaço como falha pessoal — "eu não dou conta", "eu que não sei me organizar" — em vez de reconhecerem a origem estrutural do problema. A psicóloga Mayhumi Kitagawa chama atenção justamente para esse mecanismo: o sofrimento é sistêmico, mas costuma ser vivido e explicado individualmente. Isso é relevante para quem atua ou escreve sobre psicologia, porque desloca o debate de "autocuidado" e "gestão do tempo" — respostas insuficientes para um problema estrutural — para a discussão sobre organização do trabalho e políticas públicas.

Por que essa discussão é também uma discussão de gênero

O debate sobre o fim da escala 6x1, atualmente em tramitação no Congresso Nacional (a PEC que encerra o modelo já foi aprovada na CCJ do Senado e aguarda votação em plenário), costuma ser apresentado como uma pauta trabalhista geral. Mas ignorar o recorte de gênero é perder parte central do problema: mulheres estão superrepresentadas nos setores que mais praticam essa escala, chegam em casa para uma segunda jornada que os dados mostram ser real e mensurável, e pagam por isso com menos tempo de recuperação, mais sobrecarga mental e, com frequência, menos reconhecimento de que o problema não é individual.

Entender a escala 6x1 como uma questão de saúde mental exige, portanto, entender também como ela se cruza com a divisão sexual do trabalho. Não são dois problemas paralelos — são a mesma engrenagem.

Referências

  • CUT — Central Única dos Trabalhadores. Escala 6x1 atinge 14,8 milhões de pessoas e pesa nos setores de serviços e comércio. Dados do Dieese.
  • Agência Brasil / IBGE. PNAD Contínua 2022: mulheres gastam quase o dobro de tempo no serviço doméstico.
  • Catarinas. Fim da escala 6x1: por que as mulheres serão as mais beneficiadas? — com dados de Dieese, IBGE, Think Olga (2023) e depoimentos de Amanda Corcino (CUT), Angela Welters (economista) e Mayhumi Kitagawa (psicóloga).
  • Hirata, Helena; Kergoat, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa.
  • Senado Federal. Fim da escala 6x1 é aprovado na CCJ e segue para o Plenário (setembro de 2026).

Observação editorial: alguns números citados neste texto (participação salarial, percentuais por setor) vêm de reportagens que compilam fontes diversas (Dieese, IBGE, Think Olga). 

 

 

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