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Cinco Estágios do Luto: O Que a Ciência Diz Sobre Esse Modelo

Durante décadas, os cinco estágios do luto foram apresentados como uma explicação praticamente definitiva sobre a forma como as pessoas enfrentam a perda de um ente querido. A ideia de que o luto ocorre em uma sequência previsível — negação, raiva, barganha, depressão e aceitação — tornou-se extremamente popular em livros, filmes, programas de televisão e conteúdos publicados na internet. Embora seja um dos conceitos mais conhecidos da psicologia, a pesquisa científica atual demonstra que essa interpretação está longe de representar a complexidade do processo de luto.

A compreensão contemporânea aponta que não existe uma sequência obrigatória de emoções nem um caminho universal para lidar com a perda. Cada indivíduo vivencia o luto de maneira singular, influenciado por fatores emocionais, sociais, culturais e pelas circunstâncias da morte. Entender essa diferença é fundamental para evitar expectativas irreais e sentimentos de culpa entre pessoas enlutadas.

A origem dos cinco estágios do luto

O modelo dos cinco estágios foi desenvolvido pela psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross e publicado em 1969 no livro On Death and Dying. Entretanto, um aspecto frequentemente ignorado é que a autora não estudava o luto vivido por familiares ou amigos de pessoas falecidas.

Seu trabalho foi baseado em entrevistas com pacientes diagnosticados com doenças terminais, buscando compreender como essas pessoas reagiam diante da perspectiva da própria morte. A partir dessas observações, Kübler-Ross descreveu reações emocionais como negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

Outro equívoco bastante difundido é acreditar que essas reações ocorreriam necessariamente em uma ordem específica. A própria autora nunca afirmou que todas as pessoas passariam pelos cinco estágios ou que eles seguiriam uma sequência rígida. Ainda assim, ao longo dos anos, o modelo foi simplificado e passou a ser utilizado como uma explicação geral para qualquer experiência de perda.

Por que os cinco estágios continuam sendo tão populares?

A permanência desse modelo está relacionada, em grande parte, à sua simplicidade. Organizar um fenômeno complexo em apenas cinco etapas facilita a compreensão e cria a sensação de que existe um roteiro previsível para enfrentar o sofrimento.

Além disso, diante da dor provocada pela morte de alguém importante, muitas pessoas procuram explicações que transmitam segurança. A ideia de que o sofrimento possui um começo, um meio e um fim claramente definidos oferece uma percepção de controle sobre uma experiência que, na realidade, costuma ser profundamente imprevisível.

Entretanto, essa simplificação acaba produzindo um efeito indesejado. Pessoas que não vivenciam essas emoções na ordem esperada, ou sequer experimentam algumas delas, frequentemente acreditam que existe algo errado com seu processo de luto.

O que a ciência afirma atualmente sobre o luto?

Nas últimas décadas, os estudos sobre psicologia do luto avançaram significativamente. As evidências mostram que o luto não pode ser reduzido a uma sequência de fases universais.

As reações emocionais variam enormemente entre indivíduos. Algumas pessoas experimentam tristeza intensa logo após a perda, enquanto outras permanecem em estado de choque durante semanas. Há quem sinta culpa, alívio, ansiedade, saudade, irritabilidade ou até momentos de alegria ao recordar experiências vividas com quem faleceu.

Essas emoções podem surgir, desaparecer e retornar inúmeras vezes ao longo do processo. Em vez de uma trajetória linear, o luto costuma apresentar movimentos de aproximação e afastamento da dor.

Essa variabilidade é influenciada por diversos fatores, como a qualidade do vínculo afetivo, a idade da pessoa falecida, as circunstâncias da morte, a existência de doenças anteriores, o apoio familiar, aspectos culturais, crenças religiosas e características individuais da personalidade.

Por isso, não existe uma maneira correta de sofrer nem um prazo universal para que o sofrimento desapareça.

O Modelo do Processo Dual oferece uma explicação mais consistente

Entre os modelos contemporâneos mais aceitos está o Modelo do Processo Dual, proposto pelos pesquisadores Margaret Stroebe e Henk Schut.

Segundo essa teoria, o enfrentamento do luto ocorre por meio de uma oscilação natural entre dois tipos de adaptação. Em determinados momentos, a pessoa concentra sua atenção na perda, permitindo-se sentir saudade, tristeza e recordar quem morreu. Em outros momentos, direciona energia para reconstruir a rotina, resolver questões práticas e retomar aspectos da vida cotidiana.

Essa alternância não representa um retrocesso nem significa que o indivíduo esteja evitando o sofrimento. Pelo contrário, a capacidade de oscilar entre confrontar a perda e investir na reconstrução da vida constitui um mecanismo saudável de adaptação.

Dessa perspectiva, o luto deixa de ser entendido como uma escada de cinco degraus e passa a ser compreendido como um processo dinâmico, marcado por avanços, recuos e diferentes ritmos individuais.

As evidências mostram que o mito ainda persiste

Apesar do avanço das pesquisas, a divulgação científica nem sempre acompanha esse desenvolvimento. Uma revisão publicada por Avis, Stroebe e Schut (2021) analisou 72 páginas da internet dedicadas ao tema do luto e encontrou um dado preocupante: 61% dos sites apresentavam os cinco estágios como se fossem um fato científico estabelecido, geralmente sem explicar que o modelo foi criado para pacientes terminais nem mencionar suas limitações.

Esse resultado demonstra que muitas informações amplamente compartilhadas continuam baseadas em interpretações simplificadas ou desatualizadas, contribuindo para perpetuar um dos maiores mitos sobre o luto.

O luto não segue uma fórmula pronta

A principal conclusão da literatura científica contemporânea é que o luto constitui uma experiência profundamente individual. Algumas pessoas conseguem reorganizar rapidamente a rotina, enquanto outras necessitam de meses ou anos para reconstruir diferentes aspectos da vida. Algumas preferem falar constantemente sobre quem morreu; outras encontram conforto em momentos de silêncio ou em atividades cotidianas.

Nenhuma dessas formas de enfrentamento pode ser considerada, isoladamente, mais correta que outra. O aspecto mais importante não é identificar em qual "fase" alguém se encontra, mas compreender se, gradualmente, essa pessoa consegue integrar a perda à própria história e continuar encontrando significado na vida.

Essa mudança de perspectiva também reduz a culpa frequentemente sentida por quem acredita estar "vivendo o luto errado". A ciência demonstra que não existe um roteiro universal de emoções nem uma sequência obrigatória de estágios. O sofrimento humano é muito mais complexo do que qualquer modelo linear consegue representar.

Os cinco estágios do luto tiveram importância histórica ao estimular discussões sobre morte, terminalidade e sofrimento emocional. No entanto, sua utilização como explicação universal para o processo de luto não encontra respaldo nas evidências científicas atuais. 

Pesquisas contemporâneas mostram que o luto é um fenômeno dinâmico, multifacetado e influenciado por diversos fatores individuais e contextuais. Modelos como o Processo Dual, de Stroebe e Schut, oferecem uma compreensão mais consistente ao reconhecer que as pessoas alternam continuamente entre momentos de enfrentamento da perda e momentos voltados para a reconstrução da própria vida.

Mais do que identificar fases, compreender o luto significa reconhecer a singularidade de cada experiência humana e abandonar a ideia de que existe uma única maneira correta de enfrentar a dor da perda.

Referências

AVIS, M.; STROEBE, M.; SCHUT, H. The continuing popularity of Kübler-Ross's five stages of grief. Bereavement Journal, v. 40, n. 3, 2021.

KÜBLER-ROSS, E. On Death and Dying. New York: Macmillan, 1969.

STROEBE, M.; SCHUT, H. The Dual Process Model of Coping with Bereavement: A Decade On. Omega: Journal of Death and Dying, v. 61, n. 4, p. 273–289, 2010.

WORDEN, J. W. Grief Counseling and Grief Therapy. 5. ed. New York: Springer Publishing, 2018.

 

 

 

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