Vape e saúde mental: riscos científicos do cigarro eletrônico que você precisa conhecer
O nome vem do inglês "to vape", forma abreviada de "vaporize" (vaporizar) — porque o dispositivo não queima nada, ele aquece um líquido até formar um vapor que é inalado, diferente do cigarro tradicional, que produz fumaça por combustão.
Um pouco da história do termo
- A palavra "vaping" começou a circular em fóruns e comunidades online no início dos anos 2000, quando os primeiros cigarros eletrônicos comerciais surgiram (o modelo pioneiro foi criado pelo farmacêutico chinês Hon Lik, em 2003).
- Em 2014, "vape" foi eleita a palavra do ano pelo Oxford Dictionaries, reconhecendo o quanto o termo já havia se popularizado no vocabulário cotidiano em inglês.
- O nome pegou justamente porque descreve com precisão o mecanismo do aparelho: um "vaporizador" pessoal, que transforma líquido em vapor por aquecimento — sem fogo, sem fumaça, sem cinzas.
Por que o nome importa na discussão de saúde
Curiosamente, esse próprio nome contribuiu para a percepção (equivocada, como os estudos mostram) de que o produto seria "mais limpo" ou "menos nocivo" que o cigarro — afinal, "vapor" soa mais inofensivo que "fumaça". Mas, como veremos a seguir, o vapor inalado carrega nicotina e outras substâncias químicas que afetam tanto os pulmões quanto o sistema nervoso central — o nome suave não reflete necessariamente um produto suave.
Ansiedade, Depressão, Sono e Pulmões: o Que a Ciência Diz Sobre os Riscos Reais do Vaping
O cigarro eletrônico, popularmente chamado de vape, se espalhou rapidamente entre adolescentes e adultos jovens nos últimos anos. Embalado em cores vibrantes e sabores adocicados, ele foi vendido como uma alternativa "mais leve" e "moderna" ao cigarro tradicional. Mas a ciência, cada vez mais, mostra outra realidade: os efeitos do vape sobre o corpo e a mente são reais, mensuráveis e, em muitos casos, preocupantes. É importante entender essa relação — porque o sofrimento emocional e o hábito de vaporizar caminham juntos com mais frequência do que se imagina.
O que entra no corpo quando se usa vape
Diferente do cigarro comum, o vape não queima tabaco — ele aquece um líquido (geralmente contendo nicotina, aromatizantes e outros solventes) até formar um vapor que é inalado. Isso não significa, porém, que seja inofensivo. A Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou um posicionamento oficial destacando que a alegação da indústria de que os vapes seriam uma alternativa de menor risco carece de comprovação científica sólida, e que estudos clínicos e observacionais têm apontado impactos relevantes na saúde de quem os utiliza.
Entre as substâncias liberadas no vapor estão a própria nicotina — altamente viciante — além de compostos como formaldeído, acetaldeído e, em alguns produtos, diacetil, um aromatizante ligado a uma doença pulmonar rara e irreversível conhecida popularmente como "pulmão de pipoca" (bronquiolite obliterante). Ou seja: a ausência de fumaça visível não equivale à ausência de risco respiratório.
O elo entre vape e saúde mental
É aqui que a discussão se torna especialmente relevante. Um estudo publicado no início de 2025 na revista científica Nicotine and Tobacco Research, que analisou dados de cerca de 80 mil adolescentes de 16 a 19 anos no Canadá, na Inglaterra e nos Estados Unidos, encontrou algo importante: jovens que já apresentavam sintomas de ansiedade e depressão tinham maior probabilidade de recorrer ao uso de produtos de nicotina, sobretudo vapes. Os autores sugerem que o uso desses dispositivos pode estar particularmente associado a um quadro de saúde mental mais fragilizado entre adolescentes.
Outro estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de West Virginia e publicado em julho de 2025 na revista PLOS Mental Health, reforça esse padrão em uma escala ainda maior: com dados de 60 mil estudantes do ensino fundamental e médio dos Estados Unidos, os pesquisadores encontraram que os índices de sintomas depressivos e ansiosos eram visivelmente mais altos entre usuários de cigarro eletrônico do que entre não fumantes — e ainda maiores entre quem usava tanto o cigarro tradicional quanto o eletrônico ao mesmo tempo. É importante destacar, com honestidade científica, que os próprios autores reconhecem uma limitação central: o desenho do estudo não permite afirmar com certeza se é o vape que causa o sofrimento psíquico, se é o sofrimento psíquico que leva ao uso do vape, ou se os dois se alimentam mutuamente ao longo do tempo — provavelmente uma combinação das três possibilidades.
Por que a nicotina interfere no humor e no sono
Do ponto de vista neurobiológico, a explicação para essa relação não é misteriosa. A nicotina age diretamente sobre o sistema nervoso central, interferindo em circuitos de regulação do humor — e o cérebro adolescente, ainda em pleno desenvolvimento, é particularmente sensível a essa interferência. Especialistas apontam que o uso frequente de nicotina pode intensificar sintomas ansiosos e depressivos justamente na fase em que os circuitos cerebrais de regulação emocional ainda estão amadurecendo.
Some-se a isso o impacto sobre o sono: a nicotina é um estimulante que pode causar insônia e fragmentar o sono, e a irritação das vias respiratórias causada pelo vapor pode contribuir para ronco e apneia. Como qualquer psicólogo sabe, a privação de sono não é um efeito colateral isolado — ela se retroalimenta com irritabilidade, dificuldade de concentração e agravamento de sintomas de ansiedade, criando um ciclo difícil de interromper sozinho.
O padrão que aparece nos usuários
Vale destacar um padrão comportamental comum relatado por usuários: a sensação de que vaporizar "alivia" a ansiedade no curto prazo, quando na verdade se trata do alívio momentâneo de um sintoma de abstinência que a própria substância provoca. Esse ciclo de dependência — onde a pausa entre um uso e outro já gera irritação, dificuldade de foco e desconforto — é justamente o que caracteriza a dependência química, e é um padrão que profissionais de saúde mental devem estar atentos a reconhecer em adolescentes e jovens adultos que relatam "só usar vape para relaxar".
Uma revisão de literatura publicada em periódico brasileiro (Studies in Health Sciences), que analisou 25 artigos científicos indexados nas bases Pubmed, Scopus e Web of Science sobre o tema, concluiu que, apesar de os resultados dos estudos disponíveis ainda serem parcialmente divergentes, há evidências crescentes de que o uso do cigarro eletrônico pode afetar a saúde mental de diferentes formas — o que reforça a necessidade de mais pesquisas longitudinais (que acompanham a mesma pessoa ao longo do tempo) para esclarecer melhor a direção dessa relação.
O vape é proibido no Brasil
Vale um esclarecimento importante para quem lê este texto no Brasil: os vapes são proibidos no país desde 2009, por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Essa proibição abrange a fabricação, venda, importação, divulgação, distribuição, armazenamento e transporte dos dispositivos — e, em revisão recente, a Anvisa reafirmou por decisão unânime a manutenção dessa proibição, tornando a norma ainda mais rigorosa que a original de 2009. Curiosamente, o uso pessoal em si não é tipificado como crime; a proibição recai sobre toda a cadeia comercial, não sobre o consumidor individual.
Apesar da proibição, o mercado ilegal segue expressivo: estima-se que cerca de 3 milhões de brasileiros já usaram esses dispositivos, e operações recentes de fiscalização já apreenderam dezenas de milhares de unidades contrabandeadas de uma só vez. Esse contraste entre proibição legal e disponibilidade prática é justamente parte do que preocupa autoridades de saúde pública: a facilidade de acesso, somada à ausência de controle de qualidade e composição dos líquidos vendidos clandestinamente, torna ainda mais difícil dimensionar e prevenir os riscos à saúde física e mental discutidos neste texto.
O que isso significa na prática
Para pais, educadores e profissionais de saúde mental, a mensagem central é de atenção qualificada. O vape não deve ser tratado como um hábito neutro ou passageiro — ele envolve uma substância psicoativa com potencial de dependência real, que interage diretamente com quadros de ansiedade e depressão já existentes ou em formação, especialmente em cérebros ainda em desenvolvimento. Identificar precocemente esse uso como possível sinalizador de sofrimento emocional, em vez de apenas um comportamento a ser corrigido, pode abrir caminho para uma intervenção mais eficaz — que trate a causa, e não apenas o sintoma.
Referências
- Sociedade Brasileira de Cardiologia. Posicionamento sobre o Uso de Dispositivos Eletrônicos para Fumar (2024).
- Hackworth, E. E., Vidaña-Pérez, D., O'Neal, R., Kim, M., Fillo, J., Hammond, D., & Thrasher, J. F. (2025). Trends in Mental Health Symptoms, Nicotine Product Use, and Their Association Over Time Among Adolescents in Canada, England, and the US: Findings From the ITC Adolescents Tobacco and Vaping Survey, 2020–2023. Nicotine & Tobacco Research, 27(7), 1256–1264. DOI: 10.1093/ntr/ntaf015. Disponível em: https://doi.org/10.1093/ntr/ntaf015
- Abdulhay, N., Wiener, R. C., Wen, S., Gibbs, B. B., & Bhandari, R. (2025). Mental health outcomes associated with electronic cigarette use, combustible tobacco use, and dual use among U.S. adolescents: Insights from the National Youth Tobacco Survey. PLOS Mental Health. DOI: 10.1371/journal.pmen.0000370.
- Almeida, L. A. P., Dutra, R. E., Abreu, D. C., Silva, P. L., & Silva, G. L. (2023). O uso do cigarro eletrônico e o impacto dessa prática na saúde mental. Studies in Health Sciences, Curitiba, 4(2), 337-342. DOI: 10.54022/shsv4n2-004.
- Instituto Nacional de Câncer (INCA) — dados sobre risco de experimentação e uso regular de cigarros convencionais associado ao uso prévio de vape.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — regulamentação sobre a proibição de Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) no Brasil.
Aviso importante: Este texto tem caráter exclusivamente informativo e educativo, com base em estudos científicos e posicionamentos de sociedades médicas, e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional de saúde qualificado (médico, psicólogo ou psiquiatra). Os estudos citados mostram associação entre uso de vape e sintomas de ansiedade/depressão, mas, conforme destacado no próprio texto, não estabelecem necessariamente relação de causa e efeito. Se você ou alguém próximo enfrenta dependência de nicotina, sofrimento emocional ou sintomas de ansiedade e depressão, procure orientação de um profissional de saúde.