Trauma e Memória Corporal: Como Experiências Traumáticas Afetam a Saúde Emocional

Como experiências traumáticas podem afetar a saúde emocional — e o que pode ajudar na recuperação

Nem todo acontecimento difícil provoca um trauma psicológico. Perdas, separações, acidentes, violência, abusos, negligência ou situações de intenso medo podem produzir sofrimento, mas seus efeitos variam de pessoa para pessoa. O trauma acontece quando uma experiência ultrapassa, naquele momento, a capacidade de uma pessoa de compreendê-la, processá-la e recuperar uma sensação de segurança.

O psiquiatra e pesquisador Bessel van der Kolk, autor do livro The Body Keeps the Score (O corpo guarda as marcas, em algumas edições brasileiras), tornou-se uma das referências contemporâneas mais conhecidas no estudo dos efeitos do trauma. Seu trabalho chama atenção para uma questão importante: experiências traumáticas não afetam apenas aquilo que pensamos. Elas também podem modificar a maneira como sentimos, reagimos e percebemos o próprio corpo.

O que acontece depois de uma experiência traumática?

Quando uma pessoa enfrenta uma ameaça intensa, o organismo mobiliza sistemas de sobrevivência. O coração acelera, a respiração muda, os músculos ficam tensos e a atenção se concentra naquilo que parece perigoso. São respostas normais diante de uma ameaça.

O problema pode surgir quando essa resposta permanece excessivamente ativada mesmo depois que o perigo terminou.

Uma pessoa que passou por uma experiência traumática pode tornar-se mais vigilante, assustada ou irritável. Pode ter dificuldades para dormir, apresentar pensamentos intrusivos, evitar determinados lugares ou situações e sentir que precisa permanecer constantemente preparada para alguma coisa ruim acontecer.

Em outros casos, ocorre quase o contrário: sensação de distanciamento, entorpecimento emocional, dificuldade de sentir prazer ou impressão de estar desconectado de si mesmo e do ambiente.

Essas manifestações podem fazer parte do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), embora somente um profissional qualificado possa realizar uma avaliação e estabelecer um diagnóstico.

O que significa “memória corporal”?

Uma das ideias mais conhecidas associadas ao trabalho de van der Kolk é que o corpo pode continuar respondendo às marcas de uma experiência traumática mesmo quando a pessoa sabe racionalmente que está segura.

Isso não significa que o corpo possua uma “memória” igual à memória consciente de uma lembrança. É mais adequado pensar em padrões aprendidos de resposta: alterações de tensão muscular, respiração, atenção, sono, alerta e reações emocionais podem ser desencadeadas por situações que lembram, de alguma maneira, a experiência original.

Por exemplo, alguém que sofreu uma agressão pode sentir ansiedade intensa diante de determinado tom de voz, cheiro, ambiente ou comportamento de outra pessoa. Às vezes, a reação aparece antes mesmo que a pessoa consiga identificar conscientemente por que ficou assustada.

O passado, nesse sentido, pode continuar influenciando o presente por meio de respostas automáticas do organismo.

Trauma e regulação emocional

A regulação emocional é a capacidade de perceber, tolerar e modular emoções sem ser completamente dominado por elas. Depois de experiências traumáticas, essa capacidade pode ficar prejudicada.

Algumas pessoas passam a reagir de maneira muito intensa diante de estímulos relativamente pequenos. Outras aprendem a bloquear ou afastar as próprias emoções. Podem ter dificuldade para identificar o que estão sentindo, expressar necessidades ou perceber os sinais de cansaço e estresse.

Isso pode afetar relacionamentos, trabalho, vida acadêmica, sexualidade, sono e autoestima.

Van der Kolk enfatiza que compreender intelectualmente o trauma é importante, mas nem sempre suficiente. Uma pessoa pode saber perfeitamente que determinada situação pertence ao passado e, ainda assim, apresentar uma reação corporal intensa no presente.

Por isso, abordagens contemporâneas do trauma frequentemente consideram não apenas pensamentos e narrativas, mas também emoções, sensações corporais, relações interpessoais e percepção de segurança.

Como o trauma pode afetar a saúde emocional?

Os efeitos podem aparecer de diferentes maneiras. Entre eles estão ansiedade persistente, irritabilidade, alterações do sono, dificuldade de concentração, sentimentos de culpa ou vergonha, isolamento social, hipervigilância, tristeza e perda de interesse por atividades anteriormente prazerosas.

Também podem surgir dificuldades para confiar em outras pessoas ou estabelecer vínculos. Para alguém que aprendeu, por meio da experiência, que o mundo pode ser perigoso ou imprevisível, relaxar diante de outras pessoas pode não ser simples.

É importante, entretanto, evitar uma interpretação determinista. Ter passado por um trauma não significa necessariamente desenvolver um transtorno psicológico. Pessoas diferentes respondem de maneiras diferentes às adversidades, e fatores como apoio social, condições de vida, recursos pessoais e possibilidade de acesso a cuidados podem influenciar o processo de recuperação.

É possível enfrentar os efeitos do trauma?

Sim. O trauma não precisa determinar permanentemente a vida de uma pessoa.

O primeiro passo é reconhecer que determinadas reações podem ter uma história. Em vez de interpretar ansiedade, irritabilidade ou afastamento emocional simplesmente como “fraqueza” ou “falta de controle”, pode ser mais produtivo compreender que essas respostas podem ter sido formas de proteção diante de uma situação difícil.

A psicoterapia é uma das principais formas de tratamento. Existem diferentes abordagens com evidências para o tratamento de problemas relacionados ao trauma, incluindo terapias focadas no trauma e técnicas como a terapia cognitivo-comportamental focada no trauma e o EMDR.

Dependendo do quadro, avaliação e acompanhamento médico também podem ser necessários.

Além do tratamento profissional, algumas práticas podem contribuir para recuperar gradualmente a sensação de segurança: estabelecer rotinas de sono, manter relações sociais confiáveis, praticar atividade física compatível com as condições da pessoa, prestar atenção às próprias sensações corporais e desenvolver estratégias de respiração e relaxamento.

Essas práticas não substituem psicoterapia ou tratamento médico quando eles são necessários. Também não existe uma técnica única capaz de “apagar” um trauma.

Recuperar-se não significa esquecer

Uma ideia fundamental é que superar uma experiência traumática não significa apagar a lembrança ou fingir que ela nunca aconteceu.

A recuperação pode significar conseguir lembrar sem ser novamente dominado pela experiência; perceber uma emoção sem perder completamente o controle; reconhecer sinais de tensão antes que eles se tornem insuportáveis; voltar a estabelecer vínculos e recuperar possibilidades de escolha.

O trabalho de Bessel van der Kolk ajudou a ampliar a discussão sobre trauma justamente ao mostrar que sofrimento psicológico não acontece exclusivamente “na cabeça”. Experiências difíceis podem repercutir na maneira como o organismo reage ao mundo.

Compreender essa relação entre trauma, corpo, memória e emoções não significa considerar o corpo condenado a repetir o passado. Significa reconhecer que nossas respostas possuem uma história — e que, com segurança, tratamento adequado e relações que ofereçam suporte, novas formas de responder ao presente podem ser aprendidas.

Referência: 

VAN DER KOLK, B. A. The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma. New York: Viking, 2014.

Importante: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educativa. As informações apresentadas não substituem avaliação psicológica, diagnóstico ou tratamento realizado por psicólogo, psiquiatra ou outro profissional de saúde qualificado. Cada pessoa pode reagir de maneira diferente a experiências traumáticas, e a presença de determinados sintomas não significa necessariamente a existência de um transtorno psicológico. Se você estiver enfrentando sofrimento emocional persistente, sintomas relacionados a trauma ou dificuldades que estejam interferindo em sua vida cotidiana, procure orientação profissional adequada.

 

 

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